Radar da Economia: Powell anuncia tapering ainda em 2021

Na manhã do dia 27 de agosto, os investidores globais acompanharam atentamente o discurso de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (FED). O discurso foi realizado no Simpósio Anual de Jackson Hole.

Sua mensagem veio alinhada ao exposto na ata da última reunião do Federal Open Market Committee (FOMC), ainda que com contornos mais dovish. Segundo a autoridade monetária, o tapering — redução nas compras de ativos — deve, sim, começar em 2021. Isso porque a economia evolui ainda mais rumo às metas visadas de emprego e de inflação.

Contudo, não se trata de um processo iminente, já na reunião de setembro de 2021. Afinal, os progressos registrados até agora foram insuficientes para justificar tal anúncio, especialmente no que se refere ao mercado de trabalho.

Por outro lado, no quesito inflação, Powell deixou bem claro que o “progresso substancial adicional” já é detectado nos dados correntes e nas expectativas. Ou seja, mesmo que parte da alta de preços seja derivada de fatores transitórios — aspecto reafirmado por ele —, os objetivos já foram alcançados.

Neste Radar da Economia, aproveitamos esse discurso de Powell para tratar a tendência positiva que enxergamos para o mercado de trabalho nos Estados Unidos. Também abordamos o reflexo direto no processo de normalização da política monetária por lá, que deve se iniciar em dezembro, segundo nosso cenário básico.

Discurso de Powell

O tom de Powell destoou bastante daquele emitido por dirigentes regionais do FED nos últimos dias, mais propensos à ação monetária iminente. No próprio dia 27, o presidente do FED da Filadélfia, Patrick Harker, voltou a defender que a redução dos estímulos quantitativos seja feita “antes cedo do que tarde”.

Ele ainda mencionou que as compras de títulos não afetam o “lado da oferta” da economia. Ao mesmo tempo, também agregam riscos adicionais à estabilidade financeira, caso prossigam no ritmo atual.

Na mesma linha, James Bullard, do FED de St. Louis, citou que os agentes econômicos já esperam pelo anúncio do tapering. Assim, o Banco Central dos Estados Unidos poderia implementá-lo de forma rápida, completando-o até o fim do 1.º trimestre de 2022.

O foco de Bullard é a inflação, especialmente a imobiliária. Caso ela não modere em breve, haverá a necessidade de uma resposta mais agressiva por parte do FOMC — esse é o risco que ele antevê. O fato de o Core PCE estar rodando em ritmo historicamente elevado também apoia essa visão, de forma igual.

Voltando a Powell, percebemos que suas colocações sobre o mercado de trabalho foram um tanto cautelosas. Declarou que “há, ainda, um longo caminho a seguir antes do pleno emprego” e que “existe uma folga substancial” nesse mercado.

Dados

Os números do payroll referentes a julho mostram que o total de vagas criadas até o momento se encontra ainda 5,7 milhões abaixo do nível anterior à pandemia, isto é, fevereiro de 2020. Essa é a “folga” citada por Powell.

Por outro lado, o mercado de trabalho segue melhorando rapidamente. Nossas simulações indicam que essa folga na ocupação será preenchida já em fevereiro de 2022, mesmo levando em conta o crescimento vegetativo da força laboral (+100 mil/mês). Isso se for mantido o ritmo atual de criação de vagas (+943 mil em julho) ou o ritmo visto nos últimos três meses (+832 mil).

Inclusive, notamos que o passo atual do payroll no trimestre (+832 mil) está rodando bem acima daquele compatível com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), que foi de +471 mil.

Dessa forma, a criação de emprego nos Estados Unidos mostra solidez. Isso nos parece compatível com o início do tapering ao final de 2021, se mantida essa tendência positiva.

Efeitos do coronavírus

Os membros do FOMC tendem a aguardar novos indicadores para diagnosticar tanto o efeito da variante Delta na atividade quanto o término dos programas federais de benefício ao desemprego, que ocorre em setembro. Assim, acompanharão a evolução dos próximos dados de payroll de agosto e setembro.

Desse modo, é possível iniciar o caminho efetivo para o tapering ainda em 2021, seguindo a diretriz de Powell. Tendo em vista os calendários de divulgação desses dados, julgamos que a reunião do FOMC de 3 de novembro é a data mais provável para essa formalização pelo FED.

O início efetivo é em dezembro, ao passo de 15 bilhões de dólares por mês. Desse total, -10 bilhões de dólares são em treasuries e 5 bilhões em Mortgage-Backed Security (MBS).

Por fim, o presidente do FED enfatizou também que os requisitos para o aumento da taxa de juros estão dissociados daqueles para o tapering. Portanto, a taxa dos FED funds em si tende a continuar no patamar atual por um período prolongado. Hoje, está entre 0% e 0,25%.

Nesse cenário, será passível um ajuste apenas após o encerramento do processo de redução de estímulos quantitativos. No Brasil, nossa previsão para os indicadores é a seguinte:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 7,4% em 2021, 3,8% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,6% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,04 em 2021, R$ 5,17 em 2022 e R$ 5,05 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 7,75% em 2021, 7,75% em 2022 e 6,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5,2% em 2021, 2,5% em 2022 e 2,5% em 2023.

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