Radar da Economia: Powell admite tapering a partir de novembro; Selic ainda deve ter duas altas em 2021

A semana finalizada no dia 24 de setembro foi marcada por múltiplas decisões de política monetária nas principais economias mundiais. Além do Federal Reserve (FED), tivemos definições dos bancos centrais (BCs) de:

  • China (PBoC);
  • Japão (BoJ);
  • Inglaterra (BoE);
  • Suíça (SNB);
  • Suécia (Riksbank);
  • Noruega (Norges Bank).

Vale a pena destacar que o Banco Central Europeu (BCE) já havia deliberado no início de setembro. Dentre as economias emergentes, os destaques são os BCs do Brasil, da Indonésia, da Turquia (CBRT), das Filipinas e da África do Sul (SARB).

O que ficou decidido? Vamos explicar neste Radar da Economia e discorrer especificamente sobre o cenário que antecipamos para as políticas monetárias nos Estados Unidos e no Brasil.

Cenário dos bancos centrais

Na conjuntura atual, há fatores em comum que impactam todos os BCs citados. Isso tem justificado mudanças de postura monetária na maioria dos países relacionados. Em especial, destacamos o encarecimento das commodities agrícolas e industriais.

Esse contexto é derivado da rápida recuperação da economia global pós-COVID. A escassez de insumos industriais específicos e a normalização das atividades de serviços também impactam. O primeiro fator afeta a produção e os preços de bens duráveis. Por sua vez, o segundo é derivado do progresso dos planos nacionais de imunização.

Ou seja, trata-se de um ambiente em que a atividade econômica de cada país já consolida alguma superação após a pandemia. Ao mesmo tempo, as pressões inflacionárias seguem provocando certo incômodo.

Assim, é justo afirmar que a “maré está mudando” para os formuladores de política ao redor do mundo. Por isso, a tendência é de normalização das condições monetárias adiante, com o gradual encerramento das medidas de estímulo implementadas extraordinariamente em 2020.

Nesse processo, vale destacar que o Banco Central do Brasil (BCB) é aquele que se mostra mais adiantado atualmente, entre seus pares emergentes. Inclusive, a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro consolidou ainda mais essa percepção.

No que se refere ao mundo desenvolvido, o FED deixou claro que as condições atuais da economia americana já se mostram compatíveis com a redução gradual das compras de ativos ao final de 2021. Possivelmente, a partir de novembro.

Análise dos Estados Unidos

Começando pelos Estados Unidos, os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto do FED (FOMC) afirmaram que a economia tem avançado rumo às metas de inflação e de emprego. Isso foi sinalizado no comunicado da mais recente reunião de setembro. Caso esse progresso continue conforme o esperado, uma moderação no ritmo de compras de ativos pode ser garantida em breve.

Após a decisão, no Q&A, o presidente da autoridade, J. Powell, admitiu que é razoável começar o processo de tapering em novembro, de maneira gradual. Esse movimento segue tal como já embutido nos preços de mercado e exatamente em linha com o que discutimos no Radar da Economia “Powell anuncia tapering ainda em 2021”.

Por seu turno, o gráfico de expectativas dos dirigentes do FOMC para a evolução da taxa dos FED funds sinalizou que os aumentos de juros podem ocorrer antes do antecipado. Inclusive, nove dos 18 membros projetaram altas em ritmos variados já em 2022.

Em termos de projeções, o FED vê a economia crescendo 5,9% em 2021. Em junho, havia sido projetado 7%. Ao mesmo tempo, espera uma expansão mais rápida em 2022 (3,8% versus 3,3%) e 2023 (2,5% versus 2,4%).

Por outro lado, a expectativa para a inflação PCE (Despesas de Consumo Pessoal, na sigla em inglês) foi majorada em 2021 (4,2% versus 3,4%) e 2022 (2,2% versus 2,1%). Isso aconteceu mesmo com a maior taxa de desemprego no ano. Ela foi de 4,8% ante 4,5%.

Mercado de trabalho

Direcionamos nossa análise novamente para esse quesito. O objetivo é aferir se a trajetória corrente segue compatível com a perspectiva sugerida para o tapering.

Os dados de agosto do payroll mostram que o total de vagas criadas ainda está 5,3 milhões abaixo do nível anterior à pandemia, isto é, fevereiro de 2020. Nossas simulações indicam que essa folga na ocupação seria totalmente preenchida em maio de 2022, se for mantido o ritmo atual de criação de vagas no trimestre, ou seja, 742 mil por mês.

Essa conclusão considera o crescimento vegetativo da força de trabalho, que é de 100 mil por mês. Uma parcela substancial dessa melhora — entre 80% e 85% — também seria observável já ao final de 2022.

Dessa forma, mantida a tendência do payroll, a conjuntura segue compatível com o início do tapering ao final de 2021. Isso é o que o próprio FED prevê.

Quanto ao ritmo de diminuição das compras de títulos, julgamos que 15 bilhões de dólares por mês ainda é bastante apropriado. Desse total, 10 bilhões de dólares seriam para treasuries, e o restante em mortgage-backed security (MBS). Assim, a redução dos estímulos quantitativos seria concluída em meados de 2022.

Sobre a taxa dos FED funds em si, entendemos que será passível de ajustes após o encerramento do processo de tapering. Os dot plots sugerem isso. Hoje, ela está entre 0% e 0,25%.

Análise do Brasil

O Copom elevou a taxa Selic em 100 pontos-base (bps), e o índice chegou a 6,25% na reunião de setembro. Isso está alinhado ao que era esperado. O colegiado também sinalizou um novo ajuste de igual magnitude na próxima reunião, marcada para os dias 26 e 27 de outubro. Discutimos isso no Radar da Economia “Taxa de câmbio deve fechar 2021 em R$ 5,11”.

Ainda assim, no comunicado, o BCB afirmou que os ajustes de juros prosseguirão em “território contracionista”. A nosso ver, ele apontou que o orçamento para a Selic hoje pode ser ainda maior do que o embutido no cenário básico simulado.

Nesse contexto, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) projetado pelo BCB passou de 6,5% para 8,5% em 2021. Além disso, foi de 3,5% para 3,7% em 2022 e ficou estável em 3,2% em 2023. Ainda há hipóteses de que a Selic siga a trajetória do Focus. Assim, terminaria:

  • 2021 em 8,25%;
  • 2022 em 8,5%;
  • 2023 em 6,75%.

A inflação de administrados ficará em 13,7% em 2021, 4,2% em 2022 e 4,8% em 2023. Quanto ao ritmo de ajuste, a autoridade assegurou que o aumento de 100 bps praticados na reunião de setembro é a melhor escolha.

Isso tendo em vista o cumprimento das metas com a coleta de novas informações sobre o estado de atividade econômica. Além disso, existe a persistência de eventuais novos choques inflacionários.

Inflação

O Copom destacou que as pressões sobre o IPCA seguem elevadas. Os motivos são repasses de custos e restrições de oferta, que afetam a inflação de bens industriais. Além disso, o aumento nos preços de serviços é outro fator, já que refletem a gradual normalização da atividade no setor, como já esperado.

O Comitê novamente constatou a permanência de pressões sobre os componentes voláteis do IPCA, ou seja, alimentos, combustíveis e energia elétrica. Por fim, em termos de balanço de riscos, o BCB ressaltou que “o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista” nas projeções para o IPCA.

Nesse contexto, avaliamos que o Copom está mais disposto a prosseguir com o ajuste de juros ao longo do primeiro trimestre de 2022. Assim, confirmamos nossa expectativa de duas altas adicionais de 100 bps nas reuniões de outubro e de dezembro de 2021. Com isso, conduzirão a taxa Selic para 8,25% ao final de 2021.

Ainda deve haver elevação adicional de 75 bps em fevereiro de 2022, quando chegará a 9% ao ano. Esse deve ser o patamar em que tende a permanecer. Em nossa visão, esse movimento condiz com o sinalizado pelo colegiado na penúltima semana de setembro — tanto em termos de palavreado quanto em questão de projeção. Assim, os indicadores devem ficar da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 8,6% em 2021, 4% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,2% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,11 em 2021, R$ 5,24 em 2022 e R$ 5,14 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 8,25% em 2021, 9% em 2022 e 6,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5% em 2021, 1,8% em 2022 e 2,1% em 2023.

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