Radar da Economia: Selic deve chegar a 10,75% até fevereiro de 2022

As agendas de consolidação fiscal, as reformas e os ajustes têm desempenhado um papel fundamental na construção de cenários para a economia brasileira nos últimos anos. Desde a instituição da Regra do Teto de Gastos (RTG) no final de 2016, é perceptível a tendência de queda das taxas de juros domésticas, tanto longas quanto curtas.

Isso porque o novo regime fiscal estabelecido na época ajudou a reduzir a taxa de juros estrutural da economia. O processo ocorreu por meio da contenção das despesas do governo em termos reais em paralelo ao maior controle do processo inflacionário e à implementação de reformas, como a da Previdência, em 2019.

Ainda vale lembrar que a Emenda Constitucional n.º 95 foi promulgada pelo Congresso em 15 de dezembro de 2016. Também conhecida como “Emenda do Teto dos Gastos”, ela introduziu um limite ao crescimento das despesas do governo brasileiro durante 20 anos. Isso ficou determinado na Constituição e abrangeu os Três Poderes, além do Ministério Público (MP) e da Defensoria Pública da União (DPU).

Esse é o cenário deste Radar da Economia. Aqui, vamos tratar as questões fiscais e como essas definições interferem no futuro do Brasil. Entenda mais.

Impacto nas decisões do Copom

Diante do contexto apresentado, é importante observar a relevância do novo regime fiscal para as deliberações do Comitê de Política Monetária (Copom). Ela é substancial e tem sido repetidamente mencionada em comunicações oficiais e discursos de membros do Colegiado.

Porém, na conjuntura mais recente, o Comitê vem ressaltando que o “risco fiscal” segue elevado. Isso gera uma “assimetria altista” nas projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no horizonte relevante, ou seja, 2022 e 2023.

Inclusive, no contexto da pandemia, cenários alternativos chegaram a ser traçados pela autoridade monetária. O intuito foi quantificar os possíveis efeitos inflacionários de uma eventual materialização dessas ameaças.

O fato é que os acontecimentos da semana finalizada em 22 de outubro representam uma fragilização do regime fiscal vigente. Além disso, concretizam os riscos fiscais já citados. Isso porque foram elaboradas medidas que “flexibilizam” a RTG e a sua rápida aprovação em Comissão Especial da Câmara.

Inclusive, esse cenário sinaliza uma elevada propensão de o Congresso referendar essas medidas da mesma maneira. Com isso, os preços dos ativos domésticos incorporaram de forma tempestiva essa mudança de regime. Como consequência, entendemos que o Banco Central (BC) também tende a considerar esse evento em sua estratégia de política monetária.

A reunião do Copom

O BC tem enfatizado de forma perene a importância de o Brasil perseverar no processo de reformas e de ajustes econômicos. A percepção da autoridade é a de que eventuais questionamentos sobre a continuidade das reformas têm o potencial de elevar a incerteza econômica, os prêmios de risco e a taxa de juros estrutural (r*).

Isso também acontece com as mudanças permanentes no processo de ajuste das contas públicas. Além do mais, esse cenário tende a depreciar a taxa cambial. Nesse contexto, as sinalizações no front político tornaram mais concretas as chances de rompimento da RTG.

Da mesma forma, ficou mais evidente a paralisação na agenda de reformas que tramitava no Congresso, já visível semanas atrás. Com essas inovações, a incerteza econômica aumentou, e os preços de mercado incorporaram mais prêmio de risco.

O impacto disso no cenário básico do BC é direto. Nossas simulações indicam que as projeções oficiais para o IPCA tendem a subir para 4,1% em 2022, vindo de 3,7%. Em 2023, deverá chegar a 3,3%, sendo que, antes, era considerado um índice de 3,2%. Em 2021, deve ficar em 9% (8,5%). Esse contexto já considera a r* mais elevada, de 3,5%, e um balanço de riscos com assimetria.

Resposta da autoridade monetária

Nesse contexto, a resposta do Copom tende a ser ainda mais incisiva. Seus membros têm sido bastante enfáticos quanto ao cumprimento das metas no horizonte relevante. Ainda há peso relativo alto para 2022 devido aos riscos para sua credibilidade.

Desse modo, em nossa visão, o ritmo adequado de ajuste de juros deve ser alterado para 150 bps. Antes, era de 100 bps. Isso para garantir a convergência da inflação para a meta.

Ao mesmo tempo, essa situação permitirá um orçamento total maior, mesmo nesse atual estágio do ciclo — vale a pena lembrar de que r* aumentou. Avaliamos, também, que duas altas adicionais de mesma magnitude seriam suficientes para resguardar a autonomia da autoridade na atual conjuntura política.

O PIB ficará próximo a 0,5% em 2022, vindo de 5% em 2021. Por outro lado, em função da acentuada incerteza econômica/fiscal e da volatilidade trazida pelo cenário eleitoral cada vez mais presente, enxergamos o real oscilando em nível mais depreciado do que o anteriormente projetado.

Por fim, quanto ao quadro inflacionário, as nossas projeções foram revisadas para cima. Com as taxas de câmbio e juros mais elevados, elas apontam agora para um IPCA em 4,6% em 2022 e 3,25% em 2023. Assim, desacelerá a alta de 9,2% no ano corrente. Veja melhor os números consolidados e as projeções:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 9,2% em 2021, 4,6% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 19% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,47 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 10,75% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5% em 2021, 0,5% em 2022 e 1,9% em 2023.

Agora que você entendeu as perspectivas, aproveite e veja como fazer a melhor escolha de investimentos acima da inflação.

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