Radar da Economia: Powell anuncia redução da compra de ativos

A reunião do Federal Serve (FED), o banco central dos Estados Unidos, foi o assunto mais relevante da primeira semana de novembro. Pelo menos, no contexto internacional. Contudo, também foi um “não evento” ao mesmo tempo.

Isso porque tanto o seu desfecho quanto as sinalizações emanadas do encontro vieram em linha com o que foi amplamente telegrafado pela própria autoridade monetária. Neste Radar da Economia, vamos explicar melhor esse cenário. Continue lendo.

Redução da compra de ativos

Diante do cenário apresentado, as compras mensais de ativos do FED serão diminuídas em 15 bilhões de dólares por mês a partir de novembro. Esse movimento seguirá até elas serem encerradas, em meados de 2022.

Desse total, 10 bilhões de dólares serão voltados para Treasuries e 5 bilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas (MBS). Atualmente, as aquisições rodam em 120 bilhões de dólares a cada 30 dias.

Esse ritmo de tapering pode ser ajustado em função da conjuntura. No entanto, representa quase o dobro do que era praticado em 2014. Nesse período, o FED começou a reduzir o Quantitative Easing (QE) implementado.

Ainda assim, hoje retrata um boring tapering em contraste com o taper tantrum vivenciado em 2013. Isso foi descrito pelo presidente do FED da Filadélfia, Patrick Harker. Evidentemente, isso é decorrência do maior esforço do banco central em termos de transparência comunicacional, como já abordamos em artigos anteriores do Radar da Economia.

No contexto atual, foi muito bem-sucedido sob o ponto de vista da condução de expectativas e preços de mercado. Em 2013, o rendimento da 10Y Treasury Note aumentou de forma drástica após a fala do então chefe do FED, Ben Bernanke.

Ele comentou com congressistas que poderia desacelerar o ritmo de compras de ativos. Partiu de 1,93% em maio de 2013, época do discurso oficial, para aproximadamente 2,9% em dezembro do mesmo ano.

Por sua vez, em 2021, o movimento foi menos expressivo. Passou de 0,93% em dezembro de 2020, quando o Federal Open Market Committee (FOMC) começou a moldar o tapering, para 1,45% da primeira semana de novembro.

Expectativas econômicas

A economia dos Estados Unidos segue uma tendência positiva no contexto atual. Isso porque os preços dos ativos estão mais bem ancorados, e a curva de aprendizado do FOMC está consolidada. Portanto, em algum momento, espera-se que toda a política monetária volte aos eixos.

Em outras palavras, o próximo passo do FED envolverá, de maneira inevitável, o ajuste das taxas de juros de volta ao nível pré-pandemia, no mínimo. Apesar disso, os formuladores de políticas estão atualmente divididos sobre quando isso acontecerá. Ou seja, se iniciará em 2022 ou em 2023.

O último Sumário de Projeções Econômicas (SEP) da instituição apontava que 9 dos 18 membros do FOMC trabalhavam, em setembro, com a hipótese de liftoff já em 2022. Discutimos essa questão no relatório da semana, em conjunto com os dados mais recentes de mercado de trabalho nos Estados Unidos.

Para entender melhor as condições de contorno com que o FED se defrontará adiante, bem como seu padrão de reação mais provável, faz sentido voltar à sua comunicação oficial. Os guidances mais recentes podem trazer pistas sobre o timing e a intensidade do ajuste requerido na taxa de juros. Afinal, estão calcados no mandato dual emprego e inflação da autoridade monetária.

Tapering

O balanço patrimonial do FED estava em 7,4 trilhões em dezembro de 2020. Nesse período, a autoridade emitiu a sinalização inicial sobre o processo de tapering. Afinal, prometeu manter o ritmo de compras em 120 bilhões de dólares por mês até que “um progresso substancial tenha sido feito em direção às metas de máximo emprego e estabilidade de preços”.

Essa linguagem permaneceu inalterada nos statements emitidos em janeiro, março, abril e junho de 2021. Por sua vez, em julho, a autoridade reconheceu que a economia “progrediu em direção às (referidas) metas”.

No mês seguinte, o próprio presidente do FED, Jerome Powell, disse que o objetivo para a inflação havia sido atingido. Quanto ao emprego, um “claro progresso” também havia sido feito. Assim, ele disse que poderia ser apropriado começar a reduzir a compra de títulos já em 2021.

No comunicado pós-reunião de setembro, o FED foi mais além ao citar que “se o progresso continuar conforme esperado, o Comitê julga que uma moderação no ritmo de compras de ativos pode ser justificada em breve”. Na coletiva de imprensa, Powell mencionou que o teste do emprego estava “praticamente cumprido” e “poderíamos facilmente seguir em frente na próxima reunião”.

A ata da reunião de setembro expôs, ainda, que os membros do board enxergavam que a redução das compras mensais de Treasuries em 10 bilhões de dólares e de MBS em 5 bilhões de dólares seria “direta e apropriada”. Além disso, deve estar alinhada às expectativas de mercado.

Nesse compasso, começando em novembro, as compras adicionais seriam encerradas em junho. Por fim, em 22 de outubro, durante evento junto ao banco central sul-africano, Powell deu a deixa: “Eu realmente acho que é hora de diminuir”. Com isso, diminuiu as eventuais dúvidas em torno do resultado dessa reunião de novembro.

Na semana passada, até 27 de outubro, o balanço da autoridade estava em 8,6 trilhões de dólares. Mantido o ritmo anunciado, de 15 bilhões de dólares por mês, ele chegará a pouco mais de 9 trilhões de dólares quando o programa terminar. Ou seja, ainda terá o dobro do seu tamanho pré-COVID.

Quanto ao ajuste da taxa de juros, o FED o aborda de maneira separada em relação ao tapering. Sua elevação depende do retorno definitivo ao pleno emprego sob diferentes óticas, e não apenas de “progressos”. Além disso, requer o alcance da meta inflacionária média de 2% ao longo do tempo.

Na reunião dessa semana, a autoridade observou que a inflação segue elevada. Por sua vez, os desequilíbrios de oferta e demanda relacionados à pandemia e à reabertura têm contribuído para altas consideráveis de preços em alguns setores. Ainda assim, espera-se que tais pressões sejam transitórias.

Powell acrescentou que o Banco Central pode ser paciente com o aumento dos juros. No entanto, agirá se a inflação continuar elevada. Isso mostra que, no front inflacionário, o quadro parece já confirmar certo grau de normalização monetária — a incógnita principal se encontra, então, no mercado de trabalho.

Nesse contexto, o relatório de geração de vagas (payroll) referente a outubro e divulgado no dia 5 de novembro mostrou que a economia dos Estados Unidos criou 531 mil vagas líquidas no mês. Esse resultado ficou acima do esperado, que era de 450 mil. Ainda contou com o menor impacto da variante Delta, o que facilitou a reabertura e as contratações nos diferentes segmentos de serviços.

Além disso, o Departamento de Trabalho revisou para cima os números de setembro, de 194 mil para 312 mil. Em relação a agosto, o mesmo movimento foi realizado, seguindo de 366 mil para 483 mil.

Assim, a média trimestral passou para 442 mil. Mantida essa tendência, o nível de ocupação voltará ao patamar pré-pandemia em setembro de 2022. Ou seja, o mercado de trabalho nos Estados Unidos parece estar rumando de volta ao pleno emprego.

Ele deve ser efetivamente recomposto ao final do terceiro trimestre de 2021, segundo nossas simulações. Esse cenário nos parece consistente com a nossa expectativa de aumento da taxa de juros no quarto trimestre de 2022. O ritmo deverá ser 25 pontos-base (bps) em reuniões intercaladas.

Ainda assim, ressaltamos que o balanço de riscos em torno da inflação, caso piore, pode motivar ações mais antecipadas por parte do FOMC. Isso de acordo com os seus apontamentos recentes. No Brasil, o contexto é o seguinte:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 9,5% em 2021, 4,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 19% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,47 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 10,75% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5% em 2021, 0,5% em 2022 e 1,9% em 2023.

E você, como acha que essa movimentação da economia americana impactará o Brasil? Deixe seu comentário e abra as discussões.

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