Radar da Economia: Inflação descola da meta e deve pressionar a Selic em 2022

A dinâmica da inflação em 2021 tem sido impressionante. Choques sucessivos e pressões disseminadas são verificados, o que torna ainda mais desafiadora a tarefa de elaboração de cenários prospectivos.

De fato, as divergências consideráveis entre as projeções do mercado e os resultados efetivos — na maior parte das vezes sendo surpresas altistas — têm refletido o elevado grau de incerteza. Com isso, a perspectiva de inflação em dois dígitos no acumulado de 2021 ganha força e já se torna o cenário-base de boa parte dos agentes econômicos.

Essa situação gera mais pressão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022 e dificulta ainda mais a ancoragem das expectativas pelo Banco Central (BC). Sendo assim, neste Radar da Economia, discutimos sobre os desenvolvimentos recentes e o enfraquecimento do argumento de que as pressões inflacionárias são transitórias.

O que leva a esse cenário?

Um exemplo desse contexto mencionado são as surpresas recentes nas leituras de inflação. O IPCA-15 de outubro, considerada a prévia do indicador do mês, registrou alta de 1,2%. Enquanto isso, o consenso de mercado apontava avanço de 1%.

Na sequência, a leitura para o mês de outubro completo mostrou alta de 1,25%. Porém, a mediana das expectativas estava em 1,06%. A maior projeção era 1,19%, segundo pesquisa compilada pelo Broadcast.

Ainda vale destacar que, nos 12 meses anteriores, o IPCA superou o teto das estimativas em seis ocasiões. Com isso, gerou a média de um estouro a cada dois meses. Nossa projeção era de 1,12%.

A surpresa foi concentrada em bens industriais, sendo que 12 dos 13 pontos-base (bps) de diferença do dado efetivo para nossa expectativa estava embasada nessa categoria. Isso reforçou a percepção de uma tempestade perfeita em que a recomposição de preços no segmento de serviços é acompanhada pela continuidade da pressão em bens industriais.

Além disso, há um agravante vindo de preços administrados. O motivo é a perspectiva bastante desfavorável para a inflação de combustíveis no curto prazo. Tanto é que a média dos preços da gasolina, do etanol e do diesel na bomba tem mostrado um movimento consistente de alta nos últimos meses. Veja os dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) no gráfico a seguir.

Quais são as consequências?

O prosseguimento do ciclo de ajuste monetário pelo Comitê de Política Monetária (Copom) é a consequência direta desse ambiente de consecutivas surpresas inflacionárias desfavoráveis. Isso vale tanto para o IPCA headline quanto para os núcleos. Ainda há o desgarramento das expectativas de médio prazo em paralelo.

Nesse sentido, membros do BC têm reafirmado que o ritmo de 150 bps continua sendo o “mais adequado” para promover a convergência do IPCA para as metas já em 2022. Isso ocorre em decorrência da maior potência da política monetária atualmente e mesmo com os dados em alta frequência vindo bem mais salgados do que o projetado.

É importante reforçar que a projeção oficial para o IPCA de outubro era de 0,45%, tal como informado no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do terceiro trimestre de 2021. Além disso, entendemos também que a preocupação da autoridade monetária com a persistência de choques nos preços domésticos ficou mais acentuada desde meados do ano.

Em especial, as métricas de inflação acumuladas em 24 meses têm acelerado substancialmente no período. Esse é um intervalo de tempo amplo o suficiente para dissipar eventuais variações temporárias.

Com esse resultado, atingiram 7,2% no headline e 4,7% no centro na apuração de outubro. Esses resultados vêm de 4,9% e 3,4% em maio, respectivamente. Como consequência, o BC deixou de fazer referência ao caráter temporário desses choques em sua comunicação oficial.

Em resumo, avaliamos que o ciclo de aperto monetário avançará ainda mais no terreno contracionista no primeiro trimestre de 2022. Além de dezembro, projetamos mais um ajuste de 150 bps em fevereiro, levando a taxa básica para 10,75%, nível em que deve permanecer ao longo de 2022.

Ainda assim, caso o quadro inflacionário corrente e projetado mostre relevante deterioração adicional, julgamos mais provável que o orçamento total de ajuste de juros seja recalibrado para cima pelo Comitê. Confira os dados consolidados e projeções para os diferentes indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,10% em 2021, 5% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,47 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 10,75% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5% em 2021, 0,5% em 2022 e 1,9% em 2023.

Diante desse cenário, o investidor deve considerar um horizonte mais amplo. Veja quais são as melhores opções de investimento a longo prazo.

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