Radar da Economia: Novas projeções para indicadores econômicos apontam retração da economia

Algumas questões associadas ao novo programa de transferência de renda do governo, o Auxílio Brasil, trazem preocupação aos agentes de mercado nas últimas semanas. Isso suscitou revisões do cenário para 2022.

Esses aspectos não se referem à política de assistência social propriamente dita, que todos reconhecem como meritória. No entanto, dizem respeito às medidas a serem implementadas para sua viabilização e ao seu impacto negativo no arcabouço fiscal atual.

Em conjunto com esse cenário, há indicadores econômicos que precisam ser considerados. Assim, neste Radar da Economia, discutimos a perspectiva para a atividade econômica, tomando como base os dados recentemente divulgados.

Proposta do governo federal

Para viabilizar o Auxílio Brasil, o governo propôs modificar a Regra do Teto de Gastos (RTG), mais especificamente o seu cálculo. Além disso, a ideia é mudar o pagamento de precatórios devidos pela União, estipulando um sublimite anual para isso.

Todas as iniciativas têm o propósito de abrir mais espaço no orçamento de 2022, a fim de investir no novo programa e até em medidas adicionais. Inevitavelmente, a flexibilização da RTG foi interpretada como o fim da âncora fiscal.

Assim, o prêmio de risco-país piorou. Isso levou a taxa cambial e os juros de longo prazo para cima. Com isso, eles voltaram aos níveis anteriores à sua implementação, em fins de 2016.

Com o arcabouço fiscal posto à prova e o maior risco inflacionário antevisto, o Banco Central (BC) também acelerou o ritmo de ajuste de juros, de 100 pontos-base (bps) para 150 bps. Ainda tem indicado que levará a taxa Selic até onde for necessário para convergir a inflação futura à trajetória das metas em 2022 e em 2023.

Nesse ambiente de riscos fiscais crescentes, avaliamos que o panorama delineado para a economia doméstica será caracterizado por taxas de juros, inflação e câmbio elevados. Além disso, deve ser registrado um crescimento econômico mais fraco.

Análise do IBC-Br

A prévia mensal do Produto Interno Bruto (PIB) — ou Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC-Br) — recuou 0,3% em setembro, quando comparada a agosto. Calculada pelo BC, o foco foi a análise na série livre de influências sazonais.

Essa taxa veio alinhada ao esperado e ficou estável perante a observada em agosto, que foi de queda de 0,3%, conforme dado revisado. Com isso, o índice atingiu 138,56 pontos na série dessazonalizada. Esse foi o menor patamar desde dezembro passado.

Na comparação anual, a alta do IBC-Br foi de 1,5% ante consenso de 1,8%. Por sua vez, em 12 meses, o crescimento passou de 3,9% para 4,1% entre agosto e setembro. Mais importante do que isso, sua variação no terceiro trimestre de 2021 foi de -0,1%. Enquanto isso, o carregamento estatístico para o quarto trimestre de 2021 aponta para uma redução de 0,3%.

Levando em conta as correlações históricas, avaliamos que essas variações do IBC-Br são compatíveis com taxas de 0% e 0,1% para o PIB oficial, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esses dados são relativos ao terceiro e ao quarto trimestres de 2021, respectivamente.

As disparidades já anotadas no terceiro trimestre de 2021 entre os desempenhos de varejo (-1,7%), indústria (-1,7%) e serviços (2,9%) seguem as mesmas. Elas ainda devem persistir nos últimos três meses do ano, sendo de -1,8%, -0,5% e -0,3%, considerando o carregamento estatístico.

Expectativas para o PIB

O desempenho do PIB no quarto trimestre de 2021 tende a ficar abaixo da nossa expectativa anterior, que era de 0,4%. Isso nos fez revisar para baixo a expansão do indicador projetada para 2022. Passou de 0,5% para 0,1%. Além disso, a previsão de 2021 foi de 5% para 4,8%.

Ou seja, o nível de atividade tende a ficar, basicamente, de lado ao longo de 2022. Assim, deve ficar situado consideravelmente abaixo da tendência pré-pandemia, que era de 0,3% na comparação trimestral, conforme o gráfico a seguir.

Com o forte aumento esperado da taxa de juros, em um ambiente de incerteza econômica maior, entendemos que esse viés de atividade mais fraca é justificado pelos fundamentos. Até o impacto positivo do Auxílio Brasil sobre o consumo e o PIB tendem a ser pouco expressivos em vista das condições financeiras mais restritivas.

O novo programa do governo propõe pagar R$ 400 por família assim que entrar em vigor de forma plena. Os pagamentos iniciados na semana terminada em 19 de novembro englobam um valor menor, de aproximadamente R$ 220.

O motivo é que a quantia restante do benefício — ou seja, R$ 180 — ainda depende da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) dos Precatórios. Ela está em análise no Congresso.

Ainda assim, o universo de famílias a serem contempladas pelo novo programa é estimado em 21 milhões, conforme nossos cálculos. Já consideramos os novos critérios de “pobreza” e “extrema pobreza” recém-definidos pelo Ministério da Cidadania.

Com isso, uma vez que esteja 100% em vigor, o programa deverá injetar cerca de R$ 101 bilhões na economia por meio do consumo das camadas menos favorecidas da população. Em proporção do PIB, trata-se de uma quantia modesta (1%), especialmente quando comparada ao volume de transferências implementadas no auge da pandemia, em 2020. Na época, foi de 4%.

Contudo, em nossa avaliação, essa é uma política acertada no sentido de promover a redução das disparidades de renda. Especialmente, porque elas ficam ainda mais acentuadas em um ambiente de inflação elevada e baixo dinamismo da economia.

Nesse contexto, políticas de renda básica semelhantes têm sido praticadas em vários outros países, tanto emergentes quanto avançados. Veja, agora, quais são os dados consolidados e as projeções para a economia brasileira:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,1% em 2021, 5% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,5% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,47 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 10,75% em 2022 e 7,5% em 2023;.
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,8% em 2021, 0,1% em 2022 e 1,8% em 2023.

Em resumo, os indicadores domésticos de atividade — inclusive, os serviços — tiveram uma evolução aquém da esperada em outubro e no terceiro trimestre. Também apontam para um quarto trimestre mais fragilizado.

Em um contexto de riscos fiscais crescentes e política monetária apertada, revisamos a nossa projeção para o PIB de 2022. Ele deve ser de 0,1% apenas, vindo de uma alta de 4,8% em 2021. Isso consolida a percepção de um quadro econômico mais desafiador adiante.

E você, concorda com essa visão? Qual é a sua análise sobre a situação atual? Deixe seu comentário.

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