Radar da Economia: BC adota postura hawkish e Selic deve chegar a 12,25% em 2022

Neste Radar da Economia, voltamos a abordar a política monetária doméstica. Isso porque vamos repercutir a decisão recente do Comitê de Política Monetária (Copom). Ainda que o ajuste de juros promovido tenha sido alinhado ao esperado, o comunicado da decisão trouxe um viés nitidamente mais hawkish.

Em especial, diante da desancoragem das expectativas e do aumento de suas próprias projeções. A alta foi de 150 pontos-base (bps). Agora, o Banco Central (BC) destacou que é apropriado avançar o ciclo de aperto “significativamente” em território contracionista.

Além disso, pontuou que essa estratégia será mantida “até que se consolidem não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”. Por outro lado, a autoridade enfatizou pouco a perda de ímpeto da atividade econômica corrente.

Na verdade, apenas mencionou uma “evolução moderadamente abaixo do esperado”. Como reflexo dessas sinalizações, avaliamos agora que o ciclo de ajuste de juros tende a ser mais intenso e prolongado do que projetávamos antes. Com isso, a taxa Selic deverá ser elevada até 12,25% em maio de 2022. A seguir, tratamos esses aspectos em detalhes. Acompanhe.

Inflação

Começando a discussão pelo quadro inflacionário, entendemos que o aumento das expectativas — especialmente, das mais longas — nas últimas semanas foi um dos principais direcionadores da sinalização mais forte do BC. Isso veio em paralelo à piora nas projeções oficiais.

Desde a última reunião do Copom, a mediana das projeções Focus para 2023 se desgarrou da meta central em 25 bps, ou seja, 3,5% versus 3,25%. Esse cenário foi verificado mesmo com o juro maior embutido nos números.

Esse é um importante efeito de segunda ordem das pressões inflacionárias correntes. Por isso, requer maior reação monetária. Portanto, além de um sinal adverso para a credibilidade do próprio BC.

Quanto às projeções oficiais para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o BC as elevou para 10,2% em 2021, diante de 9,5% especificado antes. Para 2022, deve chegar a 4,7%, vindo de 4,1%. Em 2023, subirá para 3,2%, ante da previsão de 3,1%.

Vale a pena ressaltar que os resultados projetados pelo BC se movimentaram em linha com o que esperávamos. Contudo, as taxas em si vieram acima do indicado pelas nossas simulações, especialmente para os horizontes mais distantes. Antes, tínhamos 10,2% para 2021, 4,6% para 2022 e 3,1% para 2023.

Esses dados devem ser verificados mesmo com a Selic atingindo o pico de 11,75% em 2022, em seu cenário-base. Isso já sugere mais uma alta de 100 bps em março, no mínimo. Por fim, quanto à leitura da autoridade sobre os números correntes, foi seguida basicamente a mesma linha de antes.

Ou seja, números elevados e qualitativamente desfavoráveis na margem, considerando tanto os subitens voláteis quanto os núcleos do IPCA. Em resumo, todos esses elementos sugerem que o panorama inflacionário continua desfavorável, confirmando a postura mais firme do BC.

Atividade econômica

Por outro lado, a respeito da atividade econômica, a autoridade monetária fez poucas qualificações. Admitiu apenas que os dados divulgados desde a última reunião mostraram, novamente, uma evolução “moderadamente” abaixo da esperada.

Lembramos, aqui, que as vendas varejistas divulgadas na semana finalizada em 10 de dezembro exibiram sinais adicionais de fraqueza. Eles são compatíveis com retração ao redor de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) do 4.º trimestre de 2021. Ainda deverá acontecer um carry over de mesma magnitude para 2022, de acordo com as nossas simulações.

De qualquer forma, o significado das ponderações (inflação x atividade) do BC é bastante claro. O aperto monetário prosseguirá, apesar do seu custo em termos de PIB, até que os seguintes movimentos sejam verificados no front inflacionário:

  • desaceleração do IPCA corrente em 12 meses, materializando a “desinflação” citada pelo BC;
  • ancoragem das expectativas e projeções oficiais para 2022 e 2023 em torno das metas, lembrando que o horizonte relevante da política monetária é móvel.

De acordo com as nossas projeções, o IPCA em 12 meses seguirá acima de 10% no 1.º trimestre de 2021. Isso mostra desaceleração mais consistente apenas a partir de abril de 2022.

Também tende a conter as expectativas, altamente correlacionadas com o IPCA corrente, como já argumentamos. Veja, aqui, como devem ficar os outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,3% em 2021, 5% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,8% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,47 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 8% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,7% em 2021, -0,5% em 2022 e 1,8% em 2023.

Como resultado, avaliamos que o ciclo de aperto monetário atual será mais intenso e prolongado do que projetávamos antes, no qual a Selic terminal ficava em 10,75%. Além de fevereiro, com alta de 150 bps, trabalhamos agora com mais dois ajustes adicionais:

  • março: 100 bps;
  • maio: 50 bps.

Isso levará os juros básicos para 12,25%. Esse nível (significativamente restritivo) da Selic tende a ser mantido até o final de 2022, em nossa visão. Assim, facilita a convergência do IPCA em 2023, em especial. Quanto ao IPCA 2022, a tendência é que o BC se sinta confortável com o índice rumando para dentro da banda inflacionária, cujo topo é 5%, que é a nossa projeção atual.

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