Radar da Economia: Incerteza global interfere na política monetária dos países; BC continua com postura hawkish

A semana terminada em 17 de dezembro foi carregada de importantes decisões dos bancos centrais. Por isso, discutimos neste relatório as linhas gerais do nosso cenário para a política monetária global e local no decorrer de 2022.

Afinal, o ano tende a ser desafiador nos fronts econômico e político domésticos. Fatores globais, como a alta de juros pelo Federal Reserve (FED) e a desaceleração da China, darão contornos ainda mais interessantes a esse quadro, com evidente impacto na dinâmica relativa das moedas. Vamos entender melhor neste Radar da Economia.

Contexto global

O FED, banco central dos Estados Unidos, formalizou no dia 15 de dezembro a aceleração no ritmo do tapering de -15 bilhões de dólares por mês para -30 bilhões de dólares no mês a partir de janeiro.

Com isso, o processo de redução de estímulos quantitativos deve ser encerrado em março. Então, abre espaço para a normalização das taxas de juros por lá. Hoje, o índice dos FED funds está entre 0% e 0,25%, bem abaixo do seu equilíbrio de longo prazo, estimado em 2,5%.

Isso em um ambiente marcado por pressões inflacionárias persistentes junto ao reaquecimento do mercado de trabalho. Não à toa, a expectativa (mediana) dos dirigentes do FED já embute três altas ao longo de 2022, de 25 pontos-base (bps) cada. Elas serão seguidas por três movimentos iguais em 2023 e dois residuais em 2024.

Confirmada essa perspectiva, a taxa dos FED funds encerrará 2024 entre 2% e 2,25%, levemente aquém do seu nível neutro. Portanto, a tendência é de elevação nos juros norte-americanos ao longo de 2022.

Esse movimento pode até ser mais acelerado do que o descrito nos mais recentes dot plots do FED, que consideram quatro altas, em vez de três. Especialmente, se o ritmo inflacionário não refluir adiante.

Restante do mundo

O Banco Central Europeu (BCE), defrontado com uma conjuntura mais incerta, tende a manter uma postura monetária mais acomodatícia do que a do FED. Ainda que o seu Programa Emergencial de Compras de Ativos (PEPP) tenha seu fim planejado para março de 2022, os demais programas de estímulo persistirão por mais tempo.

Além disso, contarão com um boost momentâneo no Asset Purchase Programme (APP). Assim, a possibilidade de alta de juros na Europa, em 2022, segue distante — tal como confirmado pela própria presidente do BCE.

Por sua vez, o Banco do Japão (BoJ) se encontra ainda mais longe de eventual aperto monetário e segue verdadeiramente comprometido com a sua política ultra-acomodatícia.

Em sentido contrário, o Banco da Inglaterra (BoE) já deu início, ontem mesmo, ao ciclo de ajuste em sua taxa básica de juros. Ela foi elevada em 15 bps, chegando a 0,25%. Deve prosseguir assim ao longo dos próximos meses, devido ao quadro inflacionário local.

Situação das moedas

O fato é que o dólar (DXY) tende a se valorizar nesse contexto, seja pela robustez da economia norte-americana, seja pelas diferenças de ciclo monetário. Por exemplo, frente ao euro ou ao iene. Nessa onda, as moedas emergentes também podem ser penalizadas.

Quanto à cotação dólar americano para real brasileiro (USDBRL), ainda que projetemos 5,57 para o final de 2022, admitimos que a sua volatilidade deve se manter alta nos próximos meses. Isso devido, principalmente, aos riscos associados ao cenário eleitoral e fiscal, como abordado no Radar da Economia “Taxa de câmbio deve fechar 2021 em R$ 5,11”.

Por sua vez, as leituras do balanço de pagamento continuam ressaltando nossa baixa vulnerabilidade externa, com reduzido déficit em conta-corrente — facilmente financiado pelos Investimentos Diretos no País (IDP) — e alto volume de reservas internacionais. Dito isso, as nossas métricas de “valor justo” para o USDBRL seguem apontando para R$ 5 no médio prazo.

Contexto nacional

Por aqui, avaliamos que o ciclo de alta de juros tende a ser intenso e prolongado. A taxa Selic deverá ser elevada até 12,25% em maio de 2022 e permanecer nesse nível até o início de 2023, pelo menos. Apresentamos essa informação no Radar da Economia “BC adota postura hawkish e Selic deve chegar a 12,25% em 2022″.

O Banco Central (BC), diante da desancoragem das expectativas e do aumento de suas próprias projeções, continuou destacando ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance “significativamente” em território contracionista.

Essa estratégia será mantida “até que se consolidem não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”. Ou seja, o BC manteve as sinalizações hawkish que nos chamaram atenção na semana passada.

Além disso, mesmo com a revisão para baixo de suas projeções para o PIB (4,4% e 1% em 2021 e 2022, respectivamente), o BC segue dando pouca ênfase à perda de ímpeto da atividade econômica em sua resposta monetária.

Assim, entendemos que o aperto monetário promovido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) deve favorecer a nossa moeda. Esse é o mais agressivo visto no mundo emergente até agora e tende a contribuir devido à maior incerteza eleitoral.

Quanto à inflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o balanço de riscos futuros segue pouco favorável em nossa avaliação. O ponto mais importante a monitorar no início de 2022 será o impacto dos juros reais mais elevados sobre a atividade e os preços domésticos.

Nesse sentido, a economia mostra, agora, sinais mais consistentes de desaquecimento. Esperamos, também, certa acomodação nas cotações globais de commodities. Como resultado, projetamos que o IPCA encerre 2022 em 5%, vindo de 10,1% em 2021.

Por outro lado, itens administrados — especialmente, eletricidade e taxas de transporte público — e as mensalidades escolares permanecerão como fontes de incerteza nos próximos meses devido às pressões represadas de custos. Veja os outros dados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,1% em 2021, 5% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,1% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 8% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,7% em 2021, -0,5% em 2022 e 1,8% em 2023.

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