Radar da Economia: Inflação sobe no Brasil e nos EUA; movimento deve se manter em 2022

O destaque da segunda semana de 2022 foi a leitura de indicadores de inflação referentes ao mês de dezembro. Por consequência, também surgiu o acumulado dos índices em 2021 em diversos países, com especial atenção aos números do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no Brasil, e do Índice de Preços ao Consumidor (CPI), nos Estados Unidos.

No caso americano, a inflação ao consumidor seguiu em aceleração e encerrou o ano com alta de 7%. Essa foi a maior variação em 12 meses desde junho de 1982. Essa dinâmica desfavorável reforçou a inclinação hawkish da diretoria do FED, o banco central americano. Tanto é que alguns membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) falam abertamente sobre a possibilidade de mais três altas de juros em 2022.

No caso brasileiro, a inflação ao consumidor terminou o ano levemente acima da linha simbólica de dois dígitos. Ela deve retornar para níveis abaixo de 10% apenas a partir de março, na ausência de eventos exógenos que alterem o cenário.

Com isso, neste Radar da Economia, discutimos a respeito dos vilões da inflação doméstica em 2021. Além disso, abordaremos o que esperamos para o ano corrente. Confira.

Resultado consolidado

Para começar, é notório que o grau de incerteza para as projeções mensais de inflação foi bastante elevado. Inclusive, a ocorrência de surpresas relevantes ante as estimativas foi frequente.

De fato, levando em consideração as expectativas compiladas em pesquisas realizadas pelo Broadcast, temos que o IPCA efetivo superou o teto das projeções dos agentes econômicos em quatro meses ao longo de 2021. No gráfico adiante, esses meses são destacados pelos pontos brancos.

No total, o número divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro e Geografia e Estatística) ultrapassou a mediana das projeções em sete meses. O mês de dezembro entrou nessa conta em função de uma retomada mais forte em subitens de higiene pessoal e em alimentação fora do domicílio devido à recomposição de preços após os descontos da Black Friday em novembro.

Outro ponto também notório é a gasolina, que se tornou a grande vilã da inflação em 2021. No grupo das cinco maiores contribuições de alta em cada divulgação do IPCA, a gasolina apareceu em 10 dos últimos 12 meses. Em seis, esse subitem gerou o maior impacto para o índice geral do mês.

Na sequência, energia elétrica residencial e automóvel novo figuram em 2.º lugar. Eles aparecem entre as maiores contribuições de alta em oito meses. Em 3.º lugar e aparecendo em cinco meses cada, estão etanol, gás de botijão e passagem aérea. Veja os detalhes no gráfico e nas tabelas a seguir.

Em relação ao acumulado de 2021, que foi de 10,06%, temos que as cinco maiores contribuições vieram de, em ordem decrescente:

  • gasolina: 47,49%, com impacto de 2,34 ponto percentual (p.p.);
  • energia elétrica: 21,21%, com impacto de 0,98 p.p.;
  • automóvel novo: 16,17%, com impacto de 0,48 p.p.;
  • gás de botijão: 36,99%, com impacto de 0,41 p.p.;
  • etanol: 62,24%, com impacto de 0,41 p.p.

Ao todo, esse conjunto foi responsável por 4,62 p.p. Ou seja, cerca de 46% do IPCA do ano.

Movimento dos preços

Com esse cenário, vale destacar a dinâmica desses subitens que mais pressionaram a inflação ao longo de 2021. A gasolina sofreu um forte movimento de queda no 2.º trimestre de 2020 em função do recuo expressivo nos preços do petróleo no mercado internacional. Os motivos foram a redução da demanda e o aumento da incerteza provocada pela eclosão da pandemia.

Em maio de 2020, a gasolina registrava deflação de 14,97% nos últimos 12 meses. Nos meses seguintes, entrou em uma trajetória de normalização, retornando ao campo positivo em setembro do mesmo ano.

O cenário começou a deteriorar no 1.º trimestre de 2021 devido à forte retomada nos preços do petróleo. Isso levou a gasolina a registrar altas mensais de 7,11% em fevereiro e de 11,26% em março.

Em maio, o acumulado em 12 meses já havia superado a barreira de 40% e oscilou ao redor desse patamar até outubro. Então, passou por uma nova aceleração e encerrou o ano com alta de 47,49%.

Por sua vez, a inflação do etanol foi puxada pela queda na safra da cana-de-açúcar, além da alta na gasolina. Com isso, o combustível acelerou de 1,81% em dezembro de 2020 para 62,24% no mesmo mês de 2021.

O gás de botijão também foi influenciado pela alta do petróleo. Em energia elétrica, as pressões de alta ocorreram em função da crise hídrica. Esse cenário levou à adoção de medidas extraordinárias, como o estabelecimento da bandeira tarifária de escassez hídrica.

Isso gerou um custo adicional de R$ 14,20 a cada 100 kWh consumidos. Essa bandeira entrou em vigor em setembro e deve ficar vigente até abril de 2022. Por sua vez, o automóvel novo foi influenciado por gargalos nas cadeias de produção de insumos. Com isso, gerou escassez de peças e componentes, o que contribuiu para pressionar todo o setor industrial.

Perspectivas

Apesar de apenas cinco subitens terem representado 46% da variação do IPCA em 2021, não devemos interpretar esse resultado como pressões concentradas. O indicador de difusão encerrou o ano apontando variação positiva de 74,8% da cesta do IPCA em dezembro. Essa é a maior taxa desde fevereiro de 2016.

Além disso, a média da difusão no ano ficou em 65,94%. Isso supera bastante a média dos anos anteriores, que era de:

  • 57,83% em 2020;
  • 55,66% em 2019;
  • 55,92% em 2018.

Por fim, esperamos que o IPCA, na métrica em 12, ainda se mantenha em níveis elevados neste início de 2022. Ele deve retornar para patamares abaixo de dois dígitos a partir de março.

Entre os fatores de risco para a dinâmica da inflação, elencamos os reajustes de preços administrados. Por exemplo, as tarifas de transporte público, o processo de emplacamento e licenciamento, e as taxas de água e esgoto.

Também estamos monitorando os reajustes de mensalidades escolares em fevereiro. Além disso, fatores climáticos que geram quebras de safra podem levar a uma pressão de alta nos alimentos. Ainda há a possibilidade de um cenário eleitoral turbulento, que conduz a movimentos de depreciação da relação real e dólar e também entra como risco de alta em nosso cenário.

Em função de todos esses elementos, a assimetria no balanço de riscos segue pendendo para o lado altista. Veja no gráfico a seguir.

Veja quais foram os resultados consolidados e as previsões para esse e outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 5% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 7% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,57 em 2022, R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,7% em 2021, -0,5% em 2022 e 1,7% em 2023.

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