Radar da Economia: Com inflação em alta, FED anuncia aumento da taxa de juros nos EUA

A decisão do Federal Reserve (FED) na última semana de janeiro representou uma importante mudança nos rumos da política monetária nos Estados Unidos. Isso já foi apresentado no Radar da Economia “FED faz anúncio com tom hawkish; mercado espera alta dos juros”.

Em discursos recentes dos seus integrantes, essa visão foi confirmada. Tanto é que a mudança já é perceptível. Isso porque engloba respostas futuras mais tempestivas em termos de ajustes na taxa de juros e no balanço patrimonial.

Após a decisão, esse cenário ficou ainda mais evidente na coletiva de Jerome Powell, presidente do FED. Ele sugeriu que um aumento inicial da taxa dos FED funds (FFR) na próxima reunião, que acontecerá em 16 de março, é o consenso no board da autoridade.

Mais do que isso, indicou que, uma vez iniciado o processo, o banco central do país também se encontra propenso a reduzir seu balanço de ativos. Por sua vez, a variação desse indicador será nula a partir de março, em movimento alinhado ao cronograma (tapering) previsto pela autoridade monetária.

Por outro lado, Powell admitiu que ainda há muitas incertezas no cenário atual. Nesse sentido, ele não se comprometeu com uma trajetória determinística de normalização monetária. Na verdade, apenas forneceu os guidances direcionais.

Ou seja, as definições sobre o ritmo de alta dos juros, o timing e a magnitude da redução do balanço ficaram em aberto de forma intencional. É claro que isso resguarda certa flexibilidade desejável às decisões monetárias futuras.

Ao mesmo tempo, gera mais inquietude às projeções econômicas e aos preços de mercado. Nesse contexto, este Radar da Economia discute a trajetória que julgamos mais provável para a política monetária norte-americana, que tende a seguir para o terreno contracionista.

Cenário atual

O ponto central é que o FED está retirando, de forma rápida, os estímulos monetários implementados para fazer frente à pandemia, principalmente em função da crescente preocupação com o quadro inflacionário.

Nesse contexto, Powell reconheceu novamente que a inflação americana segue “bem acima da meta de 2%” e que os índices pioraram desde a última reunião de dezembro. Inclusive, esse cenário surpreendeu o próprio FED e os participantes do mercado. Ele ainda mencionou que o balanço de riscos em torno do cenário inflacionário pende para cima.

Devido a esse contexto, a autoridade precisa ser “humilde e ágil” para conter o surto de inflação. Caso contrário, há o risco de que ela fique enraizada na economia americana.

Os dados mais recentes da inflação Core PCE — que consiste no índice de preços de gastos com consumo — aceleraram para 4,9% em dezembro na comparação interanual. Por sua vez, o seu headline pontuou 5,8%. Ambos os índices foram divulgados após a última decisão do FED. Além disso, eles continuam rodando substancialmente acima da meta de 2%.

Quanto ao mercado de trabalho — outro componente importante nas decisões —, a leitura do FED é a de que continua “forte” e teve muito progresso nos últimos meses. Assim, deve prosseguir por um bom tempo, mesmo após a retirada dos estímulos monetários.

Diferentes indicadores foram citados por Powell. Por exemplo:

  • pedidos iniciais de seguro-desemprego;
  • vagas de emprego;
  • pesquisas qualitativas feitas com consumidores e empresas.

Todos se mostram consistentes com uma economia próxima do emprego máximo. Por isso, segundo o presidente do FED, a meta de pleno emprego não representa empecilho para a subida programada da FFR em março.

Com base nesse cenário, o comunicado do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) acrescentou um trecho relevante à sua comunicação oficial: “Com a inflação bem acima de 2% e um mercado de trabalho forte, o Comitê espera que, em breve, seja apropriado aumentar a faixa-alvo para a taxa de fundos federais”.

Aqui, a mudança foi “telegrafar” a alta de juros na próxima reunião, reconhecendo também a rápida queda no desemprego nos últimos meses. Isso porque o FED já vinha admitindo o desgarramento da taxa inflacionária há algum tempo.

Contudo, o ritmo de ajuste ficou em aberto, como mencionado antes. Ainda assim, o padrão histórico aponta para uma alta de 25 pontos-base (bps) como o mais usual.

Cenário dos próximos meses

A mudança rápida de postura do banco central dos Estados Unidos saiu de muito expansionista para restritiva. Isso foi sugerido pela linguagem hawkish de Powell. No entanto, traz o questionamento a respeito da taxa terminal desse ciclo monetário que se inicia.

Aqui, o gráfico de pontos (dot plot) publicado pela autoridade em dezembro pode propiciar informações úteis. A previsão mediana para a taxa neutra de juros de longo prazo é de 2,5% em termos nominais, ou 0,5% real.

Partindo do patamar de FFR vigente hoje, que fica entre 0% e 0,25%, entendemos que o FED tem um vasto espaço para ajustes monetários consecutivos de 25 bps ao longo de 2022. No ano, são sete reuniões ao todo. Ainda podem ser efetivados três ajustes adicionais e mais espaçados no decorrer de 2023.

Se essa trajetória for confirmada, os juros básicos nos Estados Unidos ficariam entre 2,5% e 2,75% no final de 2023. Por outro lado, analisando o gap superior a 6% entre os juros reais efetivos e o seu nível de equilíbrio (r* = 0,5%), o espaço para ajustes monetários mais tempestivos fica evidente.

Contudo, julgamos que o aperto a ser promovido via retração do balanço patrimonial do FED pode preencher esse espaço. Assim, diminui a necessidade de mais juros. Aqui, ainda tem o acréscimo do aumento da inclinação da curva de juros, com restrição das condições financeiras.

A esse respeito, Powell citou que os membros do FOMC ainda não tomaram uma decisão sobre quando, efetivamente, começará a redução do balanço de ativos do FED. Apenas mencionou que deve ocorrer “após a primeira elevação de juros”, sem dar detalhes.

A instituição seguirá debatendo o tema. Isso deve consumir, pelo menos, uma reunião depois da primeira elevação dos juros para acordar mais detalhes — que serão comunicados de maneira tempestiva, disse o presidente do FED.

Esse comentário na coletiva de imprensa, e não no comunicado da decisão, parece indicar que o momento da redução do balanço patrimonial é menos certo do que o aumento das taxas.

Movimentos do FED

Devido a esse cenário, entendemos que o FED promoverá aumentos de 25 bps na FFR em todas as reuniões restantes de 2022. Ainda deverá ter esse movimento em três ocasiões de 2023. Com isso, a taxa básica deve ficar entre 2,5% e 2,75% ao final de 2023.

Basicamente, isso reflete os riscos de alta que ainda permeiam a inflação. Entre eles, estão:

  • aumentos represados de preços;
  • efeitos defasados do encarecimento dos imóveis;
  • potenciais choques nos preços de energia, caso a situação entre Rússia e Ucrânia se deteriore;
  • reajuste de salários que as empresas poderiam repassar em contexto de aumento generalizado de preços.

No Brasil, ainda falta consolidar os dados do Produto Interno Bruto (PIB). Veja os resultados dos indicadores econômicos e as projeções:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 5,3% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 8% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,6% em 2021, -0,5% em 2022 e 1,7% em 2023.

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