Radar da Economia: Copom anuncia fim do ritmo de ajuste monetário

Na semana finalizada em 4 de fevereiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) deixou claro que o atual ciclo de aperto está prestes a ser encerrado. Ao reconhecer que os efeitos defasados dos juros se materializarão à frente, o Banco Central (BC) sinalizou que o ritmo de ajuste deve diminuir já na próxima reunião, que acontecerá em março.

Isso em comparação com o aumento de 150 pontos-base (bps) implementado no início de fevereiro. Dentre os países emergentes, o BC brasileiro é o mais adiantado no processo de contração monetária, justificando o esgotamento do processo.

Ainda assim, em nossa percepção, a credibilidade fiscal do setor público será um elemento-chave a monitorar para o efetivo encerramento do ciclo doméstico. Isso porque pode causar desancoragem adicional nas expectativas inflacionárias mais longas, se houver um quadro adverso.

Nesse contexto, reiteramos nosso call de mais dois ajustes residuais na Selic. Em março, será de 100 bps. Em maio, de 50 bps. Isso deve levar a taxa básica de juros a 12,25%, nível que tende a perdurar até o fim de 2022. A partir de agora, vamos discutir o assunto em mais detalhes.

Comunicado do Copom

O penúltimo parágrafo do comunicado da reunião do Copom trouxe as mais importantes mudanças em termos de direcionamento de curto prazo da política monetária doméstica. Nesse trecho, o Comitê deixou claro que o atual ciclo de aperto está próximo do fim.

Isso porque seus efeitos cumulativos ainda devem se manifestar na inflação ao longo do horizonte relevante. Com isso, sobre seus próximos passos, a autoridade assinalou também que “antevê como mais adequada, neste momento, a redução do ritmo de ajuste da taxa básica de juros”.

Ao nosso ver, isso é uma sinalização que diminuirá esse ritmo para 100 bps na reunião de março. Portanto, a taxa básica passará para 11,75% em março. Assim, esse desfecho veio basicamente alinhado ao nosso call, que previa a redução futura — ainda que não tão explicitamente sinalizada, como foi.

Nesse contexto, o BC continua vigilante, ao reafirmar que persistirá nessa estratégia de contração monetária. Pelo menos, até assegurar tanto a desinflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) corrente quanto a ancoragem das expectativas do IPCA projetado. Principalmente, as de maior prazo.

Como de praxe, o Comitê também lembrou que seus próximos passos poderão ser ajustados para garantir tal convergência. Isso chama a atenção, pois os dados mais recentes (IPCA-15 de janeiro) ainda mostram uma composição inflacionária desfavorável, com pressão nos núcleos e dispersão atípica — tal como temos mencionado aqui. Inclusive, tratamos a questão no Radar da Economia “Governo promete PEC para reduzir tributos; veja os impactos”.

Expectativa do mercado

O Boletim Focus registrou, desde a última reunião do Copom, aumento de 5% para 5,4% em 2022. Para 2023, mantiveram-se estáveis, em 3,5%. Em ambos os casos, ainda superam as metas centrais, de 3,5% e 3,25%, respectivamente.

Aqui, o ponto principal reside no impacto do IPCA-15 e do Boletim Focus nos resultados do modelo estrutural do BC. As projeções oficiais passaram de 4,7% para 5,4% para o IPCA 2022. Para 2023, mantiveram-se estáveis em 3,2%, mesmo com a maior inflação projetada para os itens administrados, que está em 6,6% e 5,4% em cada ano.

Isso porque as simulações contam com o real mais apreciado, passando de R$ 5,65 para R$ 5,45. Além disso, os níveis de juros estarão mais restritivos em 2022, com o pico da Selic em 12% no 1.º trimestre de 2022 e em 11,75% no final do ano. Em dezembro, os pressupostos eram de 11,75% e 11,25%.

Ou seja, esses resultados indicam que alguma elevação residual da taxa básica (25 bps) ainda será requerida em maio de 2022. Isso para consolidar a convergência do IPCA em 2023.

Aliás, este ano-calendário já adquiriu maior peso na função de reação do BC. Esse aspecto foi admitido no comunicado do dia 2 de fevereiro. No entanto, esperávamos que fosse confirmado somente no 2.º trimestre de 2022 devido ao espaço de tempo sugerido pela defasagem natural da política monetária.

Por outro lado, o Copom admite que a “incerteza” fiscal (não mais “questionamentos”) segue trazendo assimetria altista no balanço de riscos para a inflação projetada. Em outras palavras, implicam projeções para o IPCA acima do cenário-base simulado.

Nesse sentido, julgamos que o noticiário recente tem tratado de novas medidas em estudo pelo governo com impacto adverso tanto na arrecadação quanto na credibilidade fiscal de longo prazo. Essa confiabilidade e a imprecisão decorrente continuarão a pesar ainda mais no cenário prospectivo doméstico devido à incerteza acerca da política econômica após 2023.

Nesse contexto, também será um elemento-chave a monitorar para o efetivo encerramento do presente ciclo de ajuste de juros. Afinal, pode provocar desancoragem adicional nas expectativas mais longas devido ao teor das medidas de desoneração de curto prazo discutidas. Essa dinâmica foi um tanto perceptível em ciclos econômicos anteriores também marcados por incertezas quanto ao arcabouço fiscal.

Análise

Com tudo isso na conta, avaliamos que o fim do atual ciclo de juros foi um tanto “telegrafado” pelo Copom na semana finalizada em 4 de fevereiro. Isso nos induz a confirmar o nosso call de mais um ajuste residual de 50 bps na Selic em maio. Assim, ela será levada para 12,25%, taxa levemente acima das simulações do BC.

Frente à assimetria fiscal e à contração monetária que o Banco Central americano (FED) pretende implementar, esse nível de juros doméstico deve ser mantido até o fim de 2022, em nossa visão. Ainda vale observar que a situação do FED tem um possível efetivo adverso nas condições financeiras globais, como citamos no Radar da Economia “Com inflação em alta, FED anuncia aumento da taxa de juros nos EUA”.

Se não for mantido até o final de 2022, deve acontecer até que o cenário prospectivo ganhe maior clareza. Isso facilitaria um comportamento favorável das expectativas inflacionárias. Adicionalmente, nossa expectativa é de que o IPCA anual recue abaixo de 10% em meados do 2.º trimestre de 2022.

Isso porque deve ganhar uma trajetória mais consistente de desinflação apenas ao longo do 2.º semestre. Assim, deve encerrar o ano em 5,3% sem desonerações. Lembramos que os movimentos do IPCA corrente são usualmente correlacionados aos das expectativas.

Nesse cenário, supondo que o ciclo eleitoral não acarrete mudanças relevantes de política macroeconômica, a taxa Selic tende a retornar ao seu patamar neutro no decorrer de 2023. Veja no gráfico a seguir.

Confira os dados consolidados e as projeções de 2019 a 2023 para os indicadores econômicos brasileiros:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 5,3% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 8% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,6% em 2021, -0,3% em 2022 e 1,7% em 2023.

O Banco ABC não interpreta o conteúdo desta publicação como consultoria jurídica, contábil, fiscal ou de investimento ou como uma recomendação, portanto, nenhum investimento, desinvestimento ou outras ações ou decisões financeiras devem se basear apenas nas informações contidas nesta publicação.

O Banco ABC não faz qualquer representação ou garantia, expressa ou implícita, quanto à exatidão, plenitude e confiabilidade das informações, estimativas ou projeções quanto a eventos que possam ocorrer no futuro. Não há garantia de que quaisquer dessas estimativas ou projeções serão alcançadas. Nada aqui contido é, ou deve ser entendido como, uma promessa ou representação do passado ou do futuro.

O Banco ABC se exonera, expressamente, de toda e qualquer responsabilidade relacionada ou resultante da utilização desta publicação.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.