Radar da Economia: Resultado do IBC-Br altera projeções para o PIB oficial

Quase todos os indicadores domésticos de atividade econômica surpreenderam de maneira positiva no início de 2022. Contudo, sua publicação apresenta certa defasagem por questões de metodologia.

Ou seja, enxergamos hoje o hard data referente a dois meses atrás, em média. Essa também é uma limitação comum em outros países. A exceção é o National Bureau of Statistics (NBS), da China.

Nesse contexto, os dados de dezembro divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas primeiras semanas de fevereiro culminaram no Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC–Br). O indicador foi anunciado no dia 11 de fevereiro pelo BC (Banco Central).

Aqui, o ponto principal é que esses indicadores se mostram compatíveis com o Produto Interno Bruto (PIB) oficial do IBGE. Portanto, rodam basicamente de lado no 4.º trimestre de 2021, tendo uma variação nula na comparação trimestral, segundo nossas simulações.

Ainda assim, trata-se de uma taxa melhor do que a projetada anteriormente, que ficava em uma queda de 0,5%. Além disso, ficou um pouco acima do resultado do 3.º trimestre de 2021, que apresentou uma redução de 0,1%. Mais do que isso, implica um carregamento estatístico mais próximo de zero para o PIB de 2022. Antes, era de -0,5%.

Diante de todo esse cenário, este Radar da Economia abordará os dados de atividade divulgados em mais detalhes. Também apresentaremos suas implicações para o ano todo. Continue lendo.

IBC-Br

Olhando para a tendência do PIB doméstico ao longo de 2022, avaliamos que os principais drivers continuarão limitando sua dinâmica. Esses direcionadores são:

  • juros reais;
  • PIB global;
  • incerteza econômica;
  • restrições de oferta.

Apesar disso, vale a pena iniciarmos a discussão pelo IBC–Br. Esse é o tracking mensal de PIB do BC. Isso porque o indicador foi criado para tentar antecipar o resultado do Produto Interno Bruto.

Portanto, é calculado pelo BC com abrangência nacional e engloba estimativas para os diferentes setores (agropecuária, indústria e serviços) acrescidas de impostos sobre produtos, na ótica da oferta. Voltando aos dados do IBC–Br, temos algumas informações importantes.

O índice veio em 0,3% na margem em dezembro, após 0,5% em novembro — que foi revisado de 0,6%. Esse resultado está alinhado à nossa projeção de 0,3%, ainda que abaixo do consenso de 0,6%.

Na comparação com dezembro de 2020, o IBC–Br pontuou alta de 1,3%. Em 2021, variou em 4,4%, ante uma queda de 4,1% em 2020. Considerando a série revisada, o índice mostrou estabilidade no 4.º trimestre de 2021, com variação nula, assim como ocorreu no 3.º trimestre de 2021.

Análise

A observação de um passo adiante e a suposição de que ficará estável indica que o IBC–Br já “contrata” um leve crescimento de 0,4% no 1.º trimestre de 2022 e de 0,3% em 2022 (carry). Traduzindo esses dados para o PIB oficial, nossos modelos indicam variações ao redor de zero tanto no 4.º trimestre de 2021 quanto no 1.º trimestre de 2022.

Essa taxa é idêntica ao carregamento estatístico anual de 2022. Ou seja, ainda que discretamente, esses números superam as nossas projeções anteriores para o PIB, que eram de -0,5% no 4.º trimestre de 2021 e de -0,5% em 2022.

Isso nos induz a revisar o cenário nessa direção, obviamente. Vale a pena observar que o Produto Interno Bruto oficial é apurado em frequência trimestral pelo IBGE e tem metodologia distinta do BC. Entenda mais nos gráficos a seguir.

Outro fator que nos chama a atenção diz respeito ao ponto de partida positivo do nível de atividade nesse início de 2022. Isso também é notável nos levantamentos setoriais do IBGE. As Pesquisas Industrial Mensal – Produção Física (PIM–PF), Mensal de Serviços (PMS) e Mensal de Comércio (PMC-A) já exibem carregamento estatístico positivo no 1.º trimestre de 2022.

Os resultados foram de 1,9%, 1,7% e 0,4%, respectivamente. Então, o que vale perguntar, aqui, é se esse movimento tende a perdurar mais para frente ou se é apenas matemático. Confira informações nos gráficos.

Análises por setores

Os fundamentos econômicos mostram que alguns elementos relevantes devem seguir impactando de maneira adversa o setor industrial. Eles são:

Por outro lado, apenas a recomposição de estoques setoriais tende a ajudar. Quanto às atividades de serviços, destacamos o advento da variante Ômicron no 1.º trimestre de 2022, que afetou a mobilidade.

Isso tem certa correlação com os fatores macro contracionistas citados antes. Outro ponto de importância é o mercado de trabalho ainda fraco, que mostra baixo dinamismo da massa salarial real e desemprego elevado.

Os mesmos direcionadores tendem, igualmente, a limitar as atividades do comércio varejista. De maneira um tanto ilustrativa, os índices de confiança econômica referentes a janeiro e os antecedentes do setor automobilístico do mesmo mês apontam para a perda de ímpeto na margem da atividade no 1.º trimestre de 2022.

Ou seja, há um movimento além da mera recuperação mecânica (estatística). Por fim, o setor agrícola também é digno de nota, ainda que tenha um peso menor no PIB total, de apenas 6%.

Isso porque, apesar da perspectiva de crescimento ao longo de 2022, as estimativas para a safra têm sido seguidamente revisadas para baixo, contando com reduções nas culturas de soja e de milho devido à estiagem nos três estados do Sul.

A partir de todos esses elementos, avaliamos que o PIB brasileiro tende a ficar basicamente de lado (0%) ao longo de 2022. Com isso, deve desacelerar na comparação com 2021, já que teve alta de 4,6%. Isso é o que os principais drivers macro apontam. Confira os dados de outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 5,3% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 8% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,6% em 2021, 0% em 2022 e 1,7% em 2023.

Um quadro melhor de retomada é factível em 2023. No entanto, é preciso ficar mais claro o cenário econômico não disruptivo após outubro.

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