Radar da Economia: O começo das boas notícias no mercado

No Radar da Economia anterior, reclamamos de não sermos portadores de boas notícias. Na semana finalizada em 22 de maio de 2020, apesar de os problemas ainda existirem, começamos a ver uma luz no fim de túnel — e não é um trem vindo na direção contrária.

O que aconteceu e que fez o ambiente mudar? Qual o reflexo desse cenário nos ativos? Onde podemos melhorar? Esses são alguns questionamentos que vamos verificar nesta análise.

O cenário internacional

O contexto exterior confirmou nossa expectativa de que, na média, o fluxo de notícias relacionado à COVID-19 seria mais positivo do que negativo. Vários fatores fizeram da semana um período mais otimista. Entre eles:

  • o afrouxamento do isolamento social na Europa;
  • os planos para esse processo nos Estados Unidos;
  • as notícias sobre a possibilidade de haver uma vacina contra a doença até o final de 2020, principalmente.

Dessa forma, apesar do risco sempre presente de uma segunda onda de contaminação, mantemos nossa visão de que as notícias da COVID-19 serão mais positivas do que negativas no exterior. Entretanto, isso não significa que o mercado internacional será positivo no geral. Entenda melhor, a seguir.

Guerra entre Estados Unidos e China

As relações entre os EUA e a China voltaram a se deteriorar rapidamente nas últimas semanas e traz uma nova fonte de incerteza para os mercados. Pelo lado dos americanos, devemos lembrar de que o país asiático sempre foi uma questão relevante para o presidente Donald Trump.

Às vésperas da eleição presidencial e com a economia em recessão, Trump deve utilizar cada vez mais a China como contraponto ao cenário econômico ruim e ao seu desempenho sofrível no combate à COVID-19. Além disso, ao contrário de outros temas polêmicos abraçados pelo presidente dos EUA no passado, a questão do país asiático é uma unanimidade entre o eleitorado americano.

Por isso, esse assunto deve ser um ponto importante na campanha eleitoral dos EUA — e com um viés nada positivo para os chineses. Por sua vez, o país asiático não tem ajudado a reduzir as tensões. Um exemplo foi a notícia de que haverá um aperto nas leis de segurança sobre Hong Kong. O alerta impactou o preço dos ativos.

Portanto, apesar das notícias positivas a respeito da pandemia, o cenário externo ainda será fonte de muita volatilidade, seja por questões econômicas, seja por aspectos geopolíticos.

O contexto brasileiro

No exterior, a situação da COVID-19 começa a entrar em uma tendência mais favorável. No entanto, no Brasil ainda estamos um pouco distantes da mesma situação. Mesmo assim, podemos dizer que, ao contrário da semana finalizada em 15 de maio, já começamos a vislumbrar alguma possibilidade de estabilização da curva.

Quando observamos os casos para o Brasil, parece realmente difícil ter algum otimismo. Como nosso modelo polinomial previa, fecharemos a semana com quase 350 mil casos confirmados e mais de 20 mil mortes. Extrapolando esses resultados para o dia 29 de maio, a previsão é de aproximadamente 440 mil casos e 26 mil mortes.

São Paulo como exemplo

Para entender melhor, vamos desagregar os dados e focar o que acontece em São Paulo para termos uma visão mais clara da situação. Apesar do índice de isolamento se mostrar insatisfatório — tanto que a Prefeitura da capital apelou para um feriadão e é possível ser decretado um lockdown —, olhando os dados, há condições de projetar uma estabilização da curva paulista, o que não conseguimos para a trajetória do Brasil.

Para isso, observamos uma certa estabilização da taxa de crescimento de novos casos no estado. Isso sugere que o achatamento da curva de disseminação em São Paulo ocorreria em torno da segunda semana de junho. Como o resto do País está com uma defasagem média de 10 dias com o que ocorre em São Paulo, devemos ver até o final de junho o mesmo movimento na curva brasileira.

Assim, ainda que não consideremos possível o afrouxamento do isolamento social em São Paulo no final de maio, como o atual decreto estabelece, também não parece razoável acreditar que a prática será ampliada para além de 15 de junho. Entretanto, é importante ressaltar que o interessante para as autoridades de saúde pública não é o número de casos em si, mas a capacidade de atendimento da rede hospitalar.

Além disso, existe uma defasagem de duas a três semanas entre o surgimento de novos casos e o impacto sobre o número de leitos. Em outras palavras, mesmo devendo atentar às projeções com cautela, já é uma “luz no fim do túnel”.

Política e suas tensões

Por mais que a questão da COVID-19 seja feita de “se”, “mas”, “porém” etc., as tensões políticas tiveram uma semana de alívio com a melhoria do diálogo entre o governo central, os governadores e o Congresso. O símbolo disso foi a reunião entre o presidente Jair Bolsonaro e os representantes dos estados, sob as bênçãos dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, David Alcolumbre.

Uma prova do clima pôde ser vista pelo discurso do governador de São Paulo, João Dória, durante o encontro: “Quero exaltar e cumprimentar a forma com que essa reunião está sendo conduzida, para a união de todos. O Brasil precisa estar unido para vencer a crise, ajudar e proteger a saúde dos brasileiros. Nós precisamos, sim, estar unidos. Vamos em praz, presidente. Vamos pelo Brasil levamos juntos. É o melhor caminho, e é a melhor forma de vencer a pandemia”.

Essa posição é bem diferente da intervenção do mesmo Dória na última reunião desse tipo em 25 de março: “Nós estamos aqui, os quatro governadores do Sudeste, em respeito ao Brasil e aos brasileiros, e em respeito também ao diálogo e ao entendimento. O senhor, como presidente da República, tinha que dar o exemplo. Tem que ser um mandatário para comandar, para dirigir e para liderar o País, e não para dividir”.

O contexto do mercado

Para ver como isso impactou os mercados, vamos comparar o que aconteceu na semana terminada em 22 de maio com o que ocorreu especificamente entre os dias 20 e 21 de maio. A ideia, aqui, é verificar como a melhoria dos ativos brasileiros foi um reflexo do que aconteceu lá fora e o que pode ser atribuído à melhoria do ambiente interno.

Vamos usar o câmbio como principal ativo e a bolsa para confirmar, ou não, nossas conclusões. Além disso, vamos ver o que afeta a moeda brasileira em três dimensões:

  • movimentos vindos do dólar;
  • movimentos inerentes aos mercados emergentes;
  • características brasileiras.

Pensando dessa forma, vemos que na semana terminada em 22 de maio, o índice DXY perdeu 1,1% do seu valor. Esse indicador mede a força do dólar contra uma cesta de moedas das principais economias mundiais, que inclui:

  • iene;
  • euro;
  • libra;
  • franco suíço;
  • dólar canadense;
  • coroa sueca.

A média entre o peso mexicano e rand sul-africano — duas moedas comparáveis à brasileira — subiu 4,4%, enquanto o real se valorizou 4,5%. Ou seja, pagando toda a semana, o movimento parece ter sido muito mais externo do que por uma questão particular do cenário do País. Isso acontece por uma redução da aversão ao risco e devido às boas notícias sobre a COVID-19.

Entendendo a situação

Com o objetivo de confirmar a análise, dividimos o período da seguinte forma: até dia 20 de maio e entre essa data e o dia 21 do mesmo mês. Na primeira parte, claramente estávamos “devendo”, enquanto as moedas da dupla México e África do Sul se valorizaram, em média 2,7%. O real, apenas 1,9%.

Portanto, se o movimento durante toda a semana foi semelhante, o que fez a diferença foi o dia 21, quando a moeda brasileira teve um aumento de 2,5% frente ao dólar, contra 1,6% da dupla emergente. A verificação da bolsa confirma essa conclusão.

Enquanto o índice Standard & Poor’s (S&P) da bolsa americana subiu 3,4% na semana, mas caiu 0,8% entre os dias 20 e 21, o Ibovespa teve alta de 5% na semana, mas 2,1% apenas no último período da análise. Reforçando esse ponto, a última vez que tivemos esse resultado na comparação entre as duas bolsas — ou seja, o indicador brasileiro em crescimento e o americano em queda — foi no dia 28 de abril, na esteira do apoio de Bolsonaro ao ministro da Economia, Paulo Guedes.

Então, nossa primeira conclusão é que o desempenho melhor dos ativos brasileiros nos últimos dias se deve mais ao crescimento do otimismo vindo do exterior do que de uma melhoria no Brasil. O que a distensão política do dia 21 fez foi apenas equiparar o preço nacional ao movimento dos demais países emergentes.

Outra forma de ver como estamos pagando pelos nossos problemas é estender o período de análise para o início de 2020, quando não havia sombra da COVID-19. Começando pelas moedas, o índice DXY ganhou 3,1% até o dia 21 de maio. Enquanto isso, a dupla emergente perdeu 18,8% e o real, 27,4%. Assim, a desvalorização da moeda brasileira tem três componentes importantes:

  • o fortalecimento do dólar;
  • o aumento da aversão ao risco;
  • o nosso problema.

Os dois primeiros poderão ser minimizados com o avanço das boas notícias relativas à COVID-19 vindas do exterior. No entanto, o último precisaremos resolver por nós mesmos. Vendo o copo “meio cheio”, temos um espaço grande para a valorização dos ativos. Por exemplo, se o real tivesse acompanhado a desvalorização da dupla emergente, sua cotação seria algo ao redor de R$ 5, em vez dos R$ 5,55 da semana terminada em 22 de maio.

Com todo esse cenário, as projeções dos indicadores brasileiros são:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020 e 3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,90 em 2020 e R$ 5,10 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • Produto Interno Bruto (PIB): 1,1% em 2019, –6% em 2020 e 3% em 2021.

Diante de todas essas condições, você tem dúvidas sobre aplicações financeiras? Entenda o investimento a curto prazo em 2020 e conheça as melhores opções.

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